Capítulo 3

31 DE JULHO DE 2011

Fazenda Valentini – Atlanta, Geórgia, Estados Unidos

O pequeno rádio funcionava em um volume estável, indicando que alguém já estava acordado na cozinha. Naya sabia que era seu avô, porque ele era a única pessoa que conhecia que acordava tão cedo e com um bom humor invejável. Se ele vivesse na cidade, com toda certeza seria aquele tipo de pessoa que acorda cedo e vai direto para a academia. Reconheceu a melodia bonita da que sabia ser a música favorita do senhor, parando no corredor, sem passar do arco de entrada do recinto para apreciá-lo cantarolando junto de Bobby Solo*.

               – Se piangi amore, io piango con te, perché sono parte di te, sorridi sempre, se tu non vuoi, non vuoi vedermi sofrire mai.*

Já tinha ouvido a história de como Giuseppe Valentini havia levado sua esposa Rosa D’Angelo para o Festival de Sanremo* em 1965 e como aquela se tornou a música do casal pelo menos umas quatro vezes. No entanto, nunca se importava em escutar novamente. Giuseppe costumava ser um homem bastante romântico, e hoje, na casa dos setenta, continuava a declarar o seu amor por Rosa todas os dias. Era impossível não se fascinar pela maneira como ele falava de sua esposa, a quem costumava levar o café na cama todos os domingos de manhã antes de irem para a missa desde o seu matrimônio.

                – Se ridi amore, io rido con te, perché tu fai parte di me*. – A neta se fez presente na cozinha, cantando a próxima linha com um rodopio. Giuseppe parou de colocar a água no café por um instante, abrindo um sorriso assim que viu a adolescente, o braço da mão livre se abrindo, entusiasmado com o movimento de dança dela. – Ricorda sempre, quell che tu fai, sopra mio volto lo rivedrai*. – Cantaram juntos a finalização da estrofe, permitindo que a música continuasse por si própria ao que Naya se aproximou do avô, dando-lhe um beijo na bochecha.

                – Buon giorno, nonno.*

                – Buon giorno, bellissima!*

O cumprimento de ambos foi feito em italiano, língua falada por sua família paterna e que estava frequentemente em contato desde que tinha nascido. Seus avós tinham muito orgulho de todos os seus netos fluentes, ainda que os adotivos e os mais novos estivessem aprendendo devagar, mas indo longe a cada dia.

O apelido, “bellissima”, surgiu quando tinha cerca de seis ou sete anos, junto do da sua irmã gêmea, “magnifica”. Afetuosamente, Giuseppe as chamava assim, enquanto Rosa costumava usar o nome do meio de todos, Naya respondendo com frequência para “Rosalie” e Lexi para “Marie”.

Era domingo, seus pais tinham voltado no dia anterior para Orange County e todos os irmãos ainda estavam dormindo no segundo andar, até mesmo porque quase nem passava das seis e dez da manhã.

                – Perché ti sei svegliato così presto oggi? – (Por que acordou tão cedo hoje?) Giuseppe continuava a sua tarefa de colocar a água fervida no café, enquanto Naya procurou por uma toalha para colocar na mesa grande de madeira que ocupava o centro do ambiente. No geral, quando acordava, a mesa já estava posta, arrumada por sua vó quando ela descesse de seu quarto, mas com o seu adiantamento, podia muito ajudar em alguma coisa.

                – Sembrava giusto. – (Só pareceu certo) Naya respondeu, sem muita razão específica. – Volevo svegliarmi e godermi la giornata. – (Queria acordar e aproveitar o dia). Sentia seu coração dizer que tinha tantas coisas para fazer, mesmo que não soubesse o que era.

A porta da cozinha que dava para os fundos da fazenda se encontrava aberta, as cores do céu matutino combinando de forma perfeita com o cenário natural. Terminou de colocar a louça na mesa, sem reparar que a música lentamente se transformara em outra.

                – Leite fresco. – O Valentini mais velho indicou o latão perto da porta em inglês antes de pegar algumas frutas da cesta do balcão, as lavando na pia.

                – Já vou pegar. – Ela respondeu, indo se sentar na escada da porta. A temperatura de 22º graus naquela manhã era gostosa, e foi por isso que deixou os olhos se fecharem, o cheiro das árvores, da grama e da terra somados ao do café recém-feito irromperam por suas narinas quando uma brisa bateu, movendo algumas mechas de seu cabelo.

Napoleão e Lafayette corriam perto do varal, brincando juntos. Naya e Lexi tinham dado os nomes para eles por causa do filme Aristogatas, da Disney, condizentes com as exatas raças: Napoleão, um Bloodhound* de 6 anos e Lafayette, um Basset Hound* de 7. Um sorriso foi aberto ao vê-los.

                – Reflexiva?

Uma das maiores vantagens e provas de tamanha conexão com nonno, é que ele sabia todas as emoções que Naya sentia. Sempre seguia firme e forte, vivendo da maneira mais leve possível, deixando-a calma em seus momentos de surto. Para ela, o italiano era sinônimo de paz, mesmo que ele tivesse nascido numa Itália fascista e vivido seus primeiros cinco anos no meio de uma guerra.

Ele não lembrava muita coisa da Segunda Guerra Mundial, mas certos detalhes eram surpreendentes, em especial as suas histórias de pós-Guerra, de quando era mais velho e as memórias continuavam bastante frescas. Chorava sempre que escutava sobre todos os esforços que tinha feito para tirar sua família da Itália nos anos de chumbo.

                – A fazenda me deixa assim. Faz eu perceber as pequenas coisas, aquilo que eu deveria ser grata todos os dias… É o lugar mais tranquilo do mundo. – A estudante respondeu.

                – É por isso que vivo aqui. – Sentiu a mão dele no seu ombro. Giuseppe então pegou a bandeja com o café da manhã da esposa: frutas, queijo, geleia, torradas compradas e a xícara de café.

Antes que ele pudesse ir na direção das escadas, Naya o interrompeu.

                – Nonno? – Chamou, e ele se virou para a menina. – Se tivesse ficado na Itália, o que acha que teria acontecido?

Ele não pareceu muito surpreso com a pergunta.

                – Para começar, tudo seria diferente. Vocês não existiriam porque seu pai não teria conhecido sua mãe. Não iríamos estar morando aqui. Seria como um effetto farfalla. – Precisava concordar com a menção do efeito borboleta*. Ela mesma nem ao menos existiria.

                – E você se arrepende?

                – Ora, Rosalie, por que diabos eu me arrependeria? – Ele a chamou pelo nome do meio, sendo a única pessoa que o usava (e tinha permissão para isso) além de Rosa. Ele trocou o peso de perna e equilibrou a bandeja numa mão só ao que a outra mostrou o arredor. – Non avrei la mia bella famiglia. Isso já não é motivo o suficiente? – (Eu não teria a minha linda família).

“Os anos 70 não foram bons no meu país, especialmente onde vivíamos. Você sabe disso. Anos de puro terrorismo. Muitos conflitos, violência, facções. Por que acha que eu e nonna preferimos viver o restante de nossas vidas numa fazenda? Tudo não acontece por acaso, Rosalie, Deus sempre é e sempre será justo e bondoso com seus filhos. A mão Dele nos guiou para cá quando uma oportunidade apareceu. E Jesus nos trouxe em segurança, caminhando do nosso lado, iluminando nossos pensamentos e garantindo que seria o melhor a se fazer”, ele continuou e Naya sentiu o focinho gelado do Basset em seu antebraço, Napoleão já com metade do corpo para dentro de casa.

                – E quanto aos seus pais? – Seu tom de voz foi delicado, porque sabia que ele tinha perdido seu pai quando criança. A mão esquerda foi elevada para acariciar a orelha grande de Lafayette.

                – Perdi meu pai na Segunda Guerra. Foi muito difícil para minha mãe, mas sobrevivemos. Você não a conheceu, mas ela veio para a Flórida também. Os pais da nonna, no entanto, lembro que estavam ansiosos demais para que eu a tirasse junto dos netos do país. Eles nos ajudaram muito, viram que era a melhor chance de vida para a única filha. A mãe da Rosa mandava cartas, até o dia que elas não vieram mais, uns dois anos depois.

Naya assentiu, abaixando o olhar para o chão.

                – Mi dispiace per la tua perdita. Não consigo nem imaginar como seria viver sem meus pais. – (Eu sinto muito por sua perda).

La morte è l’unica certezza che abbiamo nella vita. É por isso que uma vida de arrependimentos seria pior do que um destino certo selado em túmulo. – Ele deu um sorriso sábio e se retirou antes que o café pudesse esfriar.

Aquele era seu avô, com sua mania e habilidade de soltar uma frase um tanto que filosófica, e quando ela finalmente conseguia entender, era possível aplicar em mais de uma situação de vida e rotina. Tinha a sensação de que se perguntasse mais uma vez para Giuseppe de onde ele tinha vindo, ele responderia: “de algum lugar entre lá e aqui”*.

Os donos da casa foram para a missa na capela que os fazendeiros locais haviam construído anos atrás com os netos, ficando para trás apenas Ethan, Naya e Alexia, que prontamente arrumaram as coisas do café da manhã e seguiram para o estábulo, onde dariam banho nos cavalos. Os três abandonaram o Catolicismo dois anos atrás, no pontificado de Papa Bento XVI, depois de terem ficado decepcionados com sua posição sobre a homossexualidade, uma vez que além de gay, Ethan se enxergava como andrógeno e tinha orgulho disso.

A família não se chocou quando ele trouxe um menino para dentro de casa pela primeira vez e também não se importou com o não-aviso sobre sua opção sexual. “Eu não tenho que assumir, não fiz nada de errado. Por que insistem que uma simples preferência deve ser anunciada? Ninguém hétero precisa se explicar e dar satisfações”. Seu irmão soltou um dia para alguns vizinhos em Orange County, e Naya não poderia concordar mais. Até mesmo os avós, que sempre foram bastante católicos não se importavam com o neto, e eram seus defensores com unhas e dentes.

Veja bem, os três não negavam a existência de uma força maior, mas encontraram uma nova religião onde se sentiam bem melhores com os ensinamentos. De início, seu pai não gostava da ideia, mas aprendeu a aceitar depois de um discurso muito diplomático de Moon. “Nós os trouxemos para essa vida, mas não somos eles, Alexander”, foi a última fala da mãe antes de Ethan levantar e a aplaudir naquele dia na sala de estar de casa.

Os Valentini cuidavam de cinco cavalos saudáveis: duas fêmeas, Texas e Houston, e três machos, Dallas, Austin e Antonio. Texas e Dallas eram os mais velhos, que tiveram Houston.

– Nós poderíamos ir no rio hoje. – Ethan sugeriu, terminando de escovar o pelo das pernas fortes de Austin, e em seguida, passou a mão pelo cabelo rosa-choque.

– É, não é má ideia. – Foi Naya quem respondeu, colocando mais feno no suporte para comida.

– Alguém ansioso para voltar para as aulas? – Lexi guiava Texas de volta para o seu espaço próprio.

– Vocês devem estar, eu não vejo a hora de sair daquele lugar. – Mesmo que fosse para o último ano, o andrógeno continuava com suas reclamações. – Só estou ansioso para isso.

Diferente das gêmeas, ele estudava numa escola normal, enquanto elas tinham se inscrito e passado no programa educacional da Orange County School of the Arts*, providenciando ensino secundário e ensino médio junto de uma preparação profissional para a indústria das artes. Dentre os departamentos de música, teatro, belas artes, mídia e culinária, o que realmente importava para ambas as meninas era o departamento de dança. Em agosto, estariam iniciando o terceiro e penúltimo ano do programa do conservatório de dança comercial.

Por um instante, refletiu se deveria seguir em frente com seu novo plano. Só mais esse ano letivo e um outro e estaria formada, deveria mesmo largar a OCSA para trás? Sua mente passou a montar uma lista de prós e contras durante todo o resto do dia, e por momentos os outros a pegavam meio avoada, demorando para responder ou nem ao menos ouvindo as palavras que lhe foram dirigidas. Visitaram o rio mais no final da tarde e agora se encontravam na varanda, conversando sobre coisas completamente aleatórias e Ethan assustava os mais novos contando sobre sua crença em vida em outros planetas.

Rosa disse que era o suficiente e os chamou para entrar, ficando Naya e Giuseppe para trás. Ela tocava de maneira distraída as cordas do violão que tinha ganhado dois Natais atrás.

– Alguém está distante.

Ela se sentou direito no banco de madeira almofadado, ainda que houvesse espaço o suficiente para seu avô.

– Agora que estamos sozinhos, por que não me conta o que anda pensando o dia todo, hm? Desembuche. – Ele se sentou olhando direto para a neta. – Vamos, eu não nasci ontem, sei que passa algo nessa sua cabeça.

Naya respirou fundo antes de prosseguir e verificou a janela que dava para dentro da casa, observando se tinha alguém por perto. Não precisava avisar que era um segredo, tinha certeza que Giuseppe jamais falaria algo.

– Eu decidi fazer uma audição online para a agência que o padrinho fala. Ainda não fiz, mas assim que eu voltar para OC*, eu vou fazer a minha inscrição e mandar um vídeo. Vou tentar cantar. – Confessou e virou seu rosto para ele, procurando entender sua reação boquiaberta e um tanto engraçada. Ele parecia pasmo.

– Bem, finalmente, Rosalie! Isso levou um tempo. – O senhor italiano balançou a cabeça positivamente. – Achei que nunca fosse admitir para si mesma que queria ir para lá desde o início.

– Mas eu decidi antes de vir, como sabia?

– Como eu disse, eu não nasci ontem. – Ele se aproximou com um sorriso ao falar isso antes de voltar para sua posição original. – Sempre esteve na sua cara. Mas você se preocupa demais com a nossa família depois do que passamos no acidente. E você não fez aqueles cinco musicais só por divertimento, você nasceu para isso. Eu fiquei surpreso quando escolheu aquelas aulas de dança e não de música.

Naya estava com uma expressão chocada.

– Você me assusta de vez em quando sabia?

– Que nada, eu sou bonito! – Ele deu uma risada gostosa, arrumando o esgrouvinhado do chapéu em suas mãos, relando ombro com ombro com a garota. – Então é por isso aquele papo todo de arrependimento, certo?

Ela afirmou.

– Tenho medo de ir e querer voltar, não ser o que eu esperava.

– Eu também tinha esse medo quando vim para os Estados Unidos. Era horrível. Não sabia nem se conseguiríamos aprender inglês. Mas novamente, la morte…

…Morte è l’unica certezza che abbiamo nella vita. – Completou a frase dele. Sempre se aplicava às situações. Ele nunca falhava.

– Molto bene!* – A elogiou, feliz que ela havia entendido o significado. Decidiu a deixar sozinha, percebendo que o pequeno incentivo tinha desabrochado novos pensamentos. – Quando entrar, não se esqueça de trancar a porta. Buona notte, bellissima. – Se despediu com um beijo em sua testa e entrou.

A conversa com Giuseppe fez mais bem do que esperava. Ele era com toda certeza o maior exemplo de sua vida e sempre foram extremamente próximos. Sabia mais do que nunca que deveria ao menos tentar. Esse sim, seria o seu maior arrependimento no futuro. Pela primeira vez na vida, estava ansiosa para voltar para Orange County e se arriscar com a audição, afinal, a morte é a única certeza que temos nessa vida.

GLOSSÁRIO

Bobby Solo – Cantor italiano, conhecido como o “Elvis Presley da Itália”

“Se piangi se ridi” – Música de Bobby Solo. ( https://www.youtube.com/watch?v=5UFhPqoTpV4 )

Festival de Sanremo – O Festival de Canção Italiana é considerado um dos mais importantes eventos musicais do mundo e talvez o mais importante da Europa, por sua longevidade.

“Buon giorno” – Bom dia, em italiano

Nonno/Nonna – Vô/vó, em italiano

Bloodhound – Cão de caça, famoso por ser excelente farejador.

Basset Hound – Raça famosa por ser um rastreador. Por sua fisionomia, é preciso tomar cuidados com sua coluna e articulações das patas.

Efeito Borboleta – É um termo para fazer referência a uma das características mais marcantes dos sistemas caóticos: a sensibilidade nas condições iniciais. Por exemplo, o bater de asas de uma borboleta aqui, pode provocar um tufão do outro lado do mundo.

“De algum lugar entre lá e aqui” – Frase famosa do Mestre dos Magos, personagem de Caverna do Dragão.

Orange County School of the Arts (OCSA) – Escola de Artes de Orange County. Instituição de ensino não fictícia.

OC – Abreviação de Orange County.

“Molto bene” – Muito bem, em italiano.

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