20 DE JULHO DE 2011
Orange County, Califórnia do Sul, EUA
Ela sabia que dali exatamente sessenta minutos, um ano se completaria. As orbes castanhas da menina estavam quase que arregaladas, fixas nos dois pontos vermelhos e piscantes que marcavam as horas no seu relógio digital ao lado da cama. Mesmo virada para o lado contrário, conseguia sentir o olhar de sua irmã gêmea em suas costas, penetrando em suas costelas, dando o sinal de que ela também estava ciente da data que se aproximava em três mil e seiscentos segundos.
Se já passou por isso, com toda certeza vai reconhecer cada seguinte palavra: negação, raiva, negociação, depressão, aceitação. Embora a morte seja a única certeza de toda a humanidade, ninguém nunca é preparado para passar pelo luto emocional. A dor intensa, o sentimento de revolta, o vazio profundo. A família inteira era ciente de todas essas emoções.
Há exatamente um ano atrás, Naya Valentini e sua família haviam perdidos dois integrantes de sua árvore genealógica. Sob a sua percepção social precisa, seu tio favorito e sua irmã caçula. Matteo Valentini era aquele tio que não importava a situação, fazia o seu dia ficar melhor. Ele era a vida das reuniões familiares, e após se divorciar, parecia que estava mais de bem com a vida do que qualquer outra pessoa nesse mundo. Naquela tarde, em julho de 2010, ele havia levado os trigêmeos Max, Graham e Sophie para o cinema. Todos estavam animados, falando sobre a estreia de Meu Malvado Favorito. O que ninguém sabia era que ao voltarem, a tragédia os esperava. A van branca acertou em cheio o lado inteiro do motorista, inclusive a parte de trás.
Quando seus pais chegaram ao hospital após serem notificados, a notícia de que Matteo havia morrido na hora os deixou apavorados com a ideia da também possível morte dos filhos martelando na cabeça. Por sorte, os meninos se recuperariam rápido, mas Sophie havia sido levada às pressas para a sala de cirurgia. Naya não estava junto durante a emergência, de fato, ela e seus outros irmãos haviam ficado para trás para cuidar do novo filho adotivo da família, com pouco tempo de vida.
Em casa, tudo estava um caos, e ela se lembrava da cena por completo, que seu cérebro insistia em exibir em câmera lenta: Liam tentando fazer Autie parar de gritar que queria ter ido junto, ao que Ethan por muito pouco não explodia o micro-ondas ao preparar algo para comerem. Naya tentava terminar de ajudar Devyn no banho, mas o choro do bebê a desconcentrava.
Com os pais fora de casa e o pavor da ideia dos irmãos mais novos e tio envolvidos em um acidente, os quatro mais velhos conseguiram – com muito esforço – trazer os pesados colchões para o andar debaixo, onde haviam decidido passar a noite juntos, com a estratégia de conseguir olhar melhor os mais novos. Era madrugada quando o pai chegara, encontrando todos os filhos no chão de sua sala, dormindo, exceto por Lexi, que dava fórmula de bebê para Joey. Naya ainda recordava de ser acordada, e de como seu pai tentara ser o mais delicado possível ao contar que tio Matt e Sophie haviam falecido.
– Eu também não consigo dormir. – Ouviu a voz de sua irmã por cima do ombro.
E naquela simples frase, era possível sentir o peso. As duas sabiam o quão difícil tinha sido para a família inteira, principalmente para a matriarca, que havia perdido o seu chão por completo. A situação estava dez vezes pior quando Moon entrou no quarto e mais difícil estágio do luto: depressão. Eles sabiam que, como todo mundo, ela estava se esforçando para seguir em frente, porém, cada vez que olhava para o recém-nascido, a imagem de Sophie em seus braços pela primeira vez voltava em flashes. Já seu pai tinha sofrido duas perdas de uma só vez – a filha e o irmão mais velho. As manhãs na cozinha, antes animadas com as conversas das crianças, de repente, se tornava cada vez mais quieta. A mãe das crianças acabava de se recuperar da última fase, a aceitação, e o aniversário de um ano já tinha chegado.
– O que você acha que vai acontecer hoje? – Lexi perguntou, mas o silêncio foi quem a recebeu. – Só espero que a mãe não surte.
Naya se virou para o lado de sua irmã gêmea, puxando junto de si a coberta, percebendo pela primeira vez naquela noite que ambas estavam na mesma posição.
– Ela não vai. Ela é uma força da natureza. – E definitivamente existia um grau de intensidade e precisão muito fortes na resposta de Naya. Sua mãe realmente era uma mulher muito inspiradora, começando por sua história de vida. Moon nunca teve nenhuma espécie de contato com seu pai biológico, a única coisa que sabia é que ele era parte da USFK, as Forças Americanas da Coreia. Depois de um envolvimento, sua mãe acabou voltando para Busan, onde Moon nasceu e eventualmente, acabou se mudando para os Estados Unidos, apenas porque a mãe, iludida com a vida num país estrangeiro e a esperança de se casar com o pai de sua filha. Elas não o encontraram, e passaram um bom tempo num abrigo para moradores de rua. Moon foi quem decidiu ir para a escola e aprender todo o inglês que pudesse, ensinando sua mãe nas horas vagas do primeiro emprego. Acabou entrando na faculdade e engravidou nova, resultando no casamento com seu namorado. Ainda estudando, mesmo que fosse à distância, conforme seus filhos nasciam, nunca por um segundo de sua vida desistiu do sonho de criar sua própria linha de cosméticos. Começou por baixo, revendendo alguns produtos em Beaufort, decidindo se mudar para Los Angeles para finalmente abrir sua loja e colocar em prática o que aprendera em sua graduação em química.
Hoje, a mãe tinha duas lojas na Califórnia do Sul, e dava o seu melhor todos os dias, sempre incentivando suas crianças a fazerem o mesmo. Hoje, também seria um dia sem aula. A família iria visitar o túmulo de Matteo Valentini, seguido da urna onde as cinzas da irmã estavam. Moon foi quem insistiu na cremação após a doação de órgãos de Sophie, porque fazia parte de sua cultura coreana, e tecnicamente, a família Valentini-Kwon era 50% sul-coreana e 50% italiana.
– Você pensa na Sophie? – Dessa vez foi Naya quem quebrou o momento de reflexão.
– Honestamente? – Lexi virou para cima, encarando o teto antes de prosseguir. – Não mais. Claro que eu sinto falta dela. Deve ser muito pior para os meninos, eu nem consigo imaginar como seria perder você. – Fez referência ao fato de terem compartilhado o ventre da mãe. – Mas eu acredito que tenha passado por isso. E quanto a você?
– Estou pensando agora.
– Mas isso é porque é o aniversário de morte.
– Sim. Mas eu pensei na mesma coisa quando o pai voltou para casa aquele dia e contou tudo para nós. Sophie tinha sete anos. Ela se foi sem saber como é o ensino médio, ou como é beijar alguém, ou dirigir um carro. Ela nunca teve a chance de viver. Ao contrário do tio Matt. – Naya ajustou uma mecha do próprio cabelo. – Pensar nisso me deixa deprimida. Ela poderia ter tido o mundo.
– Sim.
– E quanto a nós?
– O que tem nós? – Sem entender o questionamento, Lexi franziu o cenho.
– O que eu quero dizer é que… – A outra se sentou na cama, o cobertor caiu em seu colo, assim como o seu cabelo caiu em cima de seu pijama. – Nós podemos ter o mundo, Sophie não. A questão é, o que estamos fazendo com nossas vidas?
– Ok, Nay. Relaxa um pouco e sai dessa filosofia de vida por hora. Eu e você… Nós temos só dezesseis anos. Coisas do tipo escola são as nossas maiores preocupações. – Lexi acompanhou a gêmea na movimentação, mas ao se levantar, foi se sentar na cama dela.
– Mas esse é ponto principal, Lexi. E se a gente morrer? Eu nunca fiz nada do que eu quis, nós só andamos vivendo. A Sophie, ela tinha sete anos, não tinha muito o que ela poderia ter feito a não ser…. Trazer alguma mensagem para a nossa família. – Dizer aquilo parecia a interpretação correta. – E me dói, mas eu não quero acabar que nem ela, Lexi. Eu quero viver. Eu quero decidir o que eu vou fazer, me desafiar mais. Porque eu posso morrer amanhã, ou depois de amanhã. Quero ser que nem o tio Matt. Ele fez tudo o que ele queria.
Alexia pareceu entender o significado daquela conversa, a razão da irmã tão reflexiva.
– Então, o que é que você quer fazer? Sem ser relacionado, sabe, com o que temos agora? Namorado, dança, amigos, tirando tudo isso?
A pergunta a pegou de surpresa, mas talvez o seu inconsciente queria que aquilo fosse jogado na mesa. O que Naya queria fazer com sua vida? Uma vez que terminasse o último ano do ensino médio no próximo ano, o que faria? A memória de pequena veio à tona, quando o seu interesse por filmes antigos começou a surgir depois de férias de verão na fazenda dos avós. Depois disso, lembrou-se do padrinho e do piano, e como ele disse que ela tinha uma boa voz. Seu sonho de ser atriz de musicais começou a partir daí, junto de uma semana apenas assistindo às famosas peças da Broadway. Exceto que o palco de Nova Iorque estava muito, muito, incrivelmente muito longe para ela.
Ainda com o pensamento em seu padrinho, questionou-se se deveria acreditar nele. Depois de tantas recusas, ela não teria a cara de ligar para ele e pedir um conselho, e nem ao menos de passar por cima de outras pessoas com talento incrível e muito melhores do que ela por causa de sua conexão. O jeito era tentar, passar por todas as fases de seu desafio, assim como o que sua falecida irmã nunca teria a oportunidade de fazer.
Com um sorriso brotando logo no momento em que um ano se completava desde o acidente, Naya olhou para a irmã antes de se deitar novamente.
– O quê? Por que o sorriso? Naya?
– Eu descobri o que devo fazer.
– E não vai me contar?
– Você vai descobrir.
Assim, a garota olhou mais uma vez para o relógio digital, acompanhando o momento em que ele acabava de mostrar 04:01, exatos um minuto a mais do horário em que sua irmã mais nova fora declarada sem vida. No entanto, a única coisa que conseguia fazer, era sorrir. Havia entendido uma das missões dela em sua curta passagem, e esperava que o restante pudesse entender logo. Com o coração mais leve, ela sussurrou:
– Obrigada, Sophie.